Uma fotografia produzida por um drone pode conter muito mais informações do que aquilo que vemos na imagem. Além do conteúdo visual, o próprio arquivo pode armazenar dados sobre o equipamento, o momento da captura e até a localização geográfica associada ao registro.
Este artigo apresenta, de forma prática, como esses metadados podem ser utilizados na Perícia Digital, quais informações podem ser extraídas e, principalmente, quais cuidados devem ser observados antes de atribuir valor probatório a esses dados.
O conteúdo é destinado a profissionais do Direito, peritos, assistentes técnicos, investigadores e também a leitores interessados em compreender como informações aparentemente ocultas em um arquivo podem contribuir para a reconstrução de um evento.
Contexto
Uma fotografia digital não é composta apenas pelos pixels que formam a imagem. O arquivo também pode conter informações adicionais sobre sua criação e suas características técnicas.
Parte dessas informações é armazenada na forma de metadados — literalmente, “dados sobre dados”.
Em arquivos de imagem, um dos padrões mais conhecidos é o EXIF (Exchangeable Image File Format), capaz de armazenar diferentes informações relacionadas à fotografia. Documentos técnicos do Scientific Working Group on Digital Evidence (SWGDE) apontam que metadados podem incluir fabricante e modelo da câmera, data e hora, configurações da câmera, resolução, coordenadas GPS, elevação, informações sobre lentes e histórico de processamento.
Em fotografias produzidas por drones, a presença de dados geográficos é especialmente interessante, pois determinados equipamentos podem registrar coordenadas associadas à captura da imagem.
O que são metadados?
De maneira simplificada, metadados são dados utilizados para descrever outros dados.
No caso de uma fotografia digital, o arquivo pode conter, além da própria imagem, diferentes informações sobre sua criação e suas características técnicas.
Um dos padrões utilizados para armazenar essas informações é o EXIF (Exchangeable Image File Format), presente em muitos arquivos produzidos por câmeras digitais, smartphones e outros dispositivos.
Dependendo do arquivo analisado, podem ser encontradas informações como:
- data e hora da captura;
- fabricante e modelo do equipamento;
- modelo e características da câmera;
- resolução da imagem;
- distância focal, abertura, ISO e tempo de exposição;
- coordenadas GPS;
- informações relacionadas à altitude;
- software associado ao processamento do arquivo.
Esses dados podem fornecer ao perito elementos adicionais para compreender a origem e o contexto daquele arquivo.

Legenda: Figura 1 – Exemplo de informações que podem estar presentes nos metadados de uma fotografia digital. Fonte: Elaboração própria.
Texto ALT: Exemplo de metadados de uma fotografia de drone contendo coordenadas GPS, data, equipamento, resolução e parâmetros da câmera.
Da fotografia ao mapa
Uma das possibilidades mais interessantes na análise de fotografias produzidas por drones é a existência de coordenadas geográficas nos metadados.
Quando latitude e longitude estão registradas no arquivo, essas informações podem ser extraídas e representadas em um sistema de mapas.
Dessa forma, uma sequência numérica aparentemente pouco significativa pode ser convertida em uma referência geográfica compreensível.
Imagine, por exemplo, que durante a análise de uma fotografia sejam encontradas determinadas coordenadas GPS. Ao representá-las em um mapa, é possível verificar a região à qual aquele registro geográfico corresponde e comparar essa informação com aquilo que aparece visualmente na fotografia.
Esse procedimento pode auxiliar na contextualização espacial da evidência.

Legenda: Figura 2 – Representação da localização associada às coordenadas GPS presentes nos metadados. Fonte: Elaboração própria.
Texto ALT: Representação das coordenadas GPS extraídas dos metadados de uma fotografia e sua localização em um mapa.
Uma fotografia pode ser uma evidência digital?
Uma fotografia aérea pode parecer, à primeira vista, apenas um registro visual de determinada paisagem.
Sob a perspectiva da Perícia Digital, entretanto, o arquivo pode representar uma potencial fonte de vestígios digitais.
Considere uma fotografia produzida durante um voo recreativo de drone. Para quem observa a imagem, pode existir apenas uma paisagem. Para uma análise técnica, podem existir diferentes camadas de informação.
Há aquilo que está visível na fotografia, mas também podem existir informações armazenadas no arquivo.
É justamente a combinação dessas diferentes fontes que torna a análise interessante.
O conteúdo visual pode ser comparado com coordenadas geográficas, horários, características do equipamento e outros registros disponíveis.

Legenda: Figura 3 – Uma fotografia digital pode conter informações que vão além de seu conteúdo visual. Fonte: Elaboração própria.
Texto ALT: Fotografia aérea produzida por drone acompanhada de exemplos de informações que podem auxiliar uma análise pericial.
Metadados podem comprovar onde uma fotografia foi produzida?
Aqui existe uma distinção importante.
Encontrar uma coordenada GPS nos metadados não significa, isoladamente, comprovar que a fotografia foi necessariamente produzida naquele local.
Da mesma maneira, encontrar uma determinada data no arquivo não é suficiente, por si só, para afirmar definitivamente que a imagem foi produzida naquele momento.
Metadados podem ser alterados, removidos ou inseridos posteriormente. Também podem sofrer modificações durante processos de edição, conversão, compartilhamento ou processamento por diferentes softwares e plataformas.
Por isso, na Perícia Digital, o correto não é simplesmente localizar um campo e considerá-lo verdadeiro.
É necessário avaliar sua consistência com o conjunto dos vestígios disponíveis.
Por exemplo, uma coordenada geográfica pode ser comparada com elementos visíveis na própria fotografia, registros de voo, arquivos existentes no cartão de memória, informações armazenadas pelo aplicativo de controle e outros artefatos eventualmente disponíveis.
Quanto maior a concordância entre fontes independentes de informação, maior a capacidade de contextualizar tecnicamente o evento analisado.
O ecossistema de evidências digitais de um drone
A análise forense de um drone não precisa se limitar às fotografias.
Dependendo do equipamento e do material disponível para exame, diferentes fontes podem conter informações relevantes.
Entre elas estão os próprios arquivos de fotografias e vídeos, que podem conter conteúdo visual e metadados associados.
O cartão de memória também pode ser relevante, inclusive pela possibilidade de conter arquivos adicionais ou outros vestígios relacionados à utilização do equipamento.
Os registros de voo podem fornecer informações sobre aspectos como trajetória, posição, altitude e outros dados de telemetria, dependendo do equipamento e do formato utilizado.
Também podem existir informações relacionadas ao aplicativo utilizado para controlar a aeronave, além de arquivos presentes em smartphones, tablets ou outros dispositivos empregados durante a operação.
Portanto, em uma investigação, é interessante pensar no drone não apenas como uma câmera voadora, mas como parte de um ecossistema de dispositivos e informações digitais.

Legenda: Figura 4 – Exemplos de potenciais fontes de evidências digitais relacionadas à utilização de drones. Fonte: Elaboração própria.
Texto ALT: Drone cercado pelas principais fontes potenciais de evidências digitais: fotografias, vídeos, cartão de memória, GPS, metadados, registros de voo e aplicativo de controle.
A importância da correlação dos vestígios
Uma das ideias fundamentais da análise forense digital é que uma informação não deve ser interpretada fora de contexto.
Se uma fotografia apresenta determinada coordenada GPS, por exemplo, o perito pode procurar outros elementos capazes de corroborar ou contradizer aquela informação.
O mesmo raciocínio vale para datas, horários, identificação do equipamento e demais atributos técnicos.
A análise pode envolver ainda procedimentos destinados a preservar a integridade da evidência, documentação da metodologia empregada e utilização de funções de hash para identificação dos arquivos examinados.
O objetivo não é simplesmente extrair a maior quantidade possível de informações, mas compreender o significado e as limitações de cada vestígio encontrado.
Conclusão
Uma fotografia digital possui diferentes camadas de informação.
A primeira delas é evidente: aquilo que conseguimos enxergar.
Outras, entretanto, podem permanecer ocultas para o usuário comum e somente se tornam perceptíveis quando o arquivo é analisado tecnicamente.
Metadados podem fornecer elementos relacionados ao equipamento, às características da captura, ao tempo e à localização. No caso de drones, a análise pode avançar ainda para registros de voo, dispositivos de armazenamento, aplicativos de controle e outros artefatos digitais.
Isso não significa que todo metadado encontrado deva ser automaticamente considerado verdadeiro ou suficiente para comprovar determinado fato.
Na Perícia Digital, tão importante quanto encontrar uma informação é compreender como ela foi produzida, se pode ter sido modificada, se é consistente com os demais vestígios e qual é seu significado dentro do contexto analisado.
É justamente essa correlação que pode transformar uma aparentemente simples fotografia em uma relevante fonte de informações para uma investigação.
Limitações
A presença de um determinado metadado não comprova, isoladamente, a autenticidade da informação nele registrada.
Metadados podem estar ausentes, podem ser perdidos durante determinados processos e também podem ser modificados, intencionalmente ou não. O próprio SWGDE ressalta que, embora possam auxiliar na determinação da procedência de uma imagem, metadados podem ser editados ou perdidos.
Portanto, encontrar uma coordenada GPS não permite concluir automaticamente que a fotografia foi produzida naquele local. Da mesma maneira, uma data registrada no EXIF não deve, isoladamente, ser considerada prova definitiva do momento da captura.
Também é importante distinguir integridade de autenticidade. Demonstrar que determinado arquivo permaneceu inalterado desde sua aquisição não necessariamente demonstra que todas as informações originalmente existentes nele representam corretamente os fatos alegados. As boas práticas forenses tratam esses conceitos de forma distinta.
A conclusão pericial deve resultar da análise do conjunto dos vestígios disponíveis e da correlação entre fontes independentes de informação.
É justamente nesse ponto que uma simples fotografia deixa de ser apenas uma imagem: o conteúdo visual, os metadados e os demais artefatos digitais podem, quando analisados de forma conjunta e tecnicamente fundamentada, contribuir para a reconstrução do contexto em que determinado registro foi produzido.
Referências
- Scientific Working Group on Digital Evidence (SWGDE). Best Practices for Image Authentication. Documento técnico sobre autenticação e análise estrutural de imagens digitais. Consultar documento do SWGDE Scientific Working Group on Digital Evidence (SWGDE). Best Practices for Maintaining the Integrity of Imagery. Orientações sobre integridade, autenticidade, procedência e metadados de imagens digitais. Consultar documento do SWGDE National Institute of Standards and Technology (NIST). Guttman, B.; White, D.; Williams, S.; Walraven, T. Digital Evidence Preservation: Considerations for Evidence Handlers. NISTIR 8387, 2022. Consultar publicação do NIST Scientific Working Group on Digital Evidence (SWGDE). Digital Image Compression and File Format Guidelines. Documento sobre formatos de imagem digital, incluindo EXIF e metadados. Consultar documento do SWGDE


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